Disco USB Externo Aparece como RAW no Windows: Causa e Resolução

RAW · disco USB · recuperação dados · CHKDSK · TestDisk · Windows  |  ✎ Duarte Spínola  |  2026-07-11

Sistemas Operativos · Windows · Recuperação de Dados · Filesystem

Duarte Spínola · 11 de Julho de 2026

Liga um disco externo USB ao Windows e aparece uma janela: “You need to format the disk in drive E: before you can use it.” No Gestor de Discos, a partição aparece como RAW em vez de NTFS, FAT32 ou exFAT. As propriedades do disco mostram 0 bytes de espaço usado e livre. O sintoma é claro: o boot sector ou o MFT (Master File Table) do volume ficou corrompido — o filesystem metadata é ilegível, mas os dados físicos continuam no disco. A causa mais comum é uma remoção abrupta (puxar o cabo USB sem ejectar) durante uma operação de escrita, que deixa o MFT ou o boot sector num estado inconsistente. Na grande maioria dos casos reais, o CHKDSK responde com The type of the file system is RAW. CHKDSK is not available for RAW drives. — o que confirma que o MFT está inacessível. A solução real é o TestDisk, que reconstrói o boot sector e a tabela de partições a partir das assinaturas de filesystem gravadas nos sectores do disco — sem formatar.

⚠ **Atenção

** NÃO clique em “Format disk” na janela pop-up. Formatar vai apagar todos os dados. Feche essa janela imediatamente.

1. O que Está a Acontecer — Corrupção do MFT ou Boot Sector

Quando o Windows monta um volume, lê os primeiros sectores do disco — o boot sector e, para NTFS, o MFT (Master File Table) — para identificar o filesystem. Se estes metadata structures estiverem corrompidos ou ilegíveis, o Windows não consegue determinar se o volume é NTFS, FAT32 ou exFAT. Em vez de mostrar erro, classifica o volume como RAW — que significa literalmente “raw data without a recognized filesystem”.

No entanto, os dados — os ficheiros reais — continuam fisicamente gravados nos sectores do disco. O problema é que o Windows não sabe onde começam nem como estão organizados, porque essa informação está no MFT (NTFS) ou na FAT (FAT32/exFAT).

Estrutura de um volume NTFS

Componente Função O que acontece se corrompido
Boot sector (primeiros 512 bytes) Identifica o volume como NTFS e aponta para o MFT Windows não reconhece o filesystem → RAW
MFT (Master File Table) Índice de todos os ficheiros, pastas e metadata Ficheiros não listáveis, mas dados ainda presentes
MFT mirror ($MFTMirr) Cópia de segurança dos primeiros registos do MFT Recovery possible se MFT principal danificado
Bitmap de clusters Mapa de quais clusters estão livres/ocupados Espaço livre reportado incorrectamente

A imagem abaixo mostra o Gestor de Discos (Disk Management) com o Disk 2 a apresentar filesystem RAW — o volume de 931.48 GB aparece como “RAW” em vez de NTFS, e o espaço livre é igual à capacidade total (100% livre).

Gestor de Discos — Disk 2 aparece como filesystem RAW
Figura 1 — Gestor de Discos: Disk 2 aparece como RAW (931.48 GB)

Na janela de propriedades do disco, o filesystem aparece como RAW e tanto o espaço usado como livre mostram 0 bytes — o Windows não consegue ler nenhuma informação sobre o volume.

Propriedades do disco E: — filesystem RAW, 0 bytes
Figura 2 — Propriedades do disco E: — filesystem RAW, 0 bytes de espaço

Quando se tenta aceder ao disco através do Explorer, o Windows mostra o erro: “Location is not available: E:\ is not accessible. The volume does not contain a recognized file system. Please make sure that all required file system drivers are loaded and that the volume is not corrupted.”

Erro Location is not available — E: is not accessible
Figura 3 — Erro ao tentar aceder ao disco: “The volume does not contain a recognized file system”

E imediatamente antes, o Windows pode mostrar o pop-up: “You need to format the disk in drive E: before you can use it. Do you want to format it?” — novamente, NÃO formatar.

Pop-up Windows — You need to format the disk in drive E
Figura 4 — Pop-up do Windows a pedir formatação — NÃO formatar

2. Cenários em que Este Problema Aparece

  • Remoção abrupta do cabo USB sem ejectar — a causa nº 1. Se o Windows estiver a meio de uma operação de escrita (cache flush, journal commit), o MFT fica inconsistente.
  • Falta de energia durante transferência — corte de electricidade ou queda do hub USB enquanto o disco escreve.
  • Cabo USB danificado ou mau contacto — causas intermittentes de corrupção que se acumulam ao longo do tempo.
  • Disco a chegar ao fim da vida útil — bad sectors físicos na zona do MFT. Verificar com chkdsk ou o S.M.A.R.T. do fabricante.
  • Actualização do Windows — raro, mas reportado: após update major, drivers USB podem não carregar correctamente e volumes aparecem temporariamente como RAW.
  • Partição criada num Mac (APFS/HFS+) ou Linux (ext4) ligada ao Windows sem drivers de terceiros — o Windows não reconhece o filesystem e mostra RAW. Neste caso, não há corrupção — instalar drivers como Paragon APFS ou Linux File Systems for Windows resolve.

3. Passo 1 — Confirmar com CHKDSK (quase sempre falha)

O CHKDSK é a primeira tentativa porque é nativo do Windows e leva 5 segundos. Na prática, num disco RAW verdadeiro (MFT corrompido), o CHKDSK quase sempre falha — mas convém executá-lo para confirmar o diagnóstico e excluir problemas menores.

Abrir uma linha de comandos como Administrador (Win + X → “Terminal (Admin)” ou “Command Prompt (Admin)”) e executar:

chkdsk E: /f

O parâmetro /f tenta reparar erros do filesystem. Se o volume for reconhecido (mesmo parcialmente), o CHKDSK vai repar entradas de directório inconsistentes e marcar bad sectors.

Resultado real num disco RAW (o mais comum)

The type of the file system is RAW.
CHKDSK is not available for RAW drives.

Isto confirma que o MFT e o boot sector estão inacessíveis. O CHKDSK não consegue fazer nada porque precisa de conseguir ler o filesystem metadata para o reparar. Avançar directamente para o Passo 2 (TestDisk), que é a solução que efectivamente resolve o problema.

Se o CHKDSK funcionar (caso raro)

The type of the file system is NTFS.

Chkdsk is verifying the volume…
CHKDSK discovered free space marked as allocated in the volume bitmap.
Windows has made corrections to the file system.

Se aparecer esta mensagem, o disco deve voltar a estar acessível. Isto acontece quando a corrupção é leve — apenas entradas inconsistentes, mas o MFT principal está legível. Reiniciar o Windows e verificar se os dados estão acessíveis.

⚠ **Atenção

** Se o disco fizer ruídos mecânicos (clicking, grinding) ou se estiver extremamente lento, pode ser falha física. Neste caso, NÃO correr CHKDSK nem TestDisk — cada acesso ao disco pode piorar o dano. Usar PhotoRec (Passo 3) para extrair os dados mais críticos primeiro, ou enviar a uma empresa de recuperação de dados.

4. Passo 2 — Reparar Partição com TestDisk (a solução real)

O TestDisk é a ferramenta que efectivamente resolve a maioria dos casos de disco RAW. É open-source e gratuita (CGSecurity). Ao contrário do CHKDSK, que precisa de um MFT minimamente legível, o TestDisk faz um deep scan dos sectores do disco à procura de assinaturas de filesystem conhecidas (NTFS boot sector, FAT32 BPB, exFAT VBR) e reconstrói a tabela de partições a partir dessas assinaturas.

Em termos simples: o TestDisk ignora o MFT corrompido e vai directamente aos sectores do disco procurar a assinatura “NTFS” no início de cada partição. Quando encontra, reconstrói o registo da partição na tabela. O MFT original pode depois ser recuperado a partir do boot sector reconstruído.

4.1 Download e execução

  1. Descarregar TestDisk de https://www.cgsecurity.org/wiki/TestDisk_Download
  2. Extrair o .zip para uma pasta (ex: C:\testdisk\)
  3. Abrir uma linha de comandos como Administrador
  4. Navegar para a pasta e executar:
cd C:\testdisk\testdisk-7.2-WIP.win
testdisk_win.exe

4.2 Workflow de recuperação

O TestDisk é uma ferramenta interativa de terminal. Seguir estes passos:

  1. Create a new log file — premir Enter (recomendado, cria testdisk.log com toda a actividade)
  2. Seleccionar o disco — usar as setas para escolher o disco USB que aparece como RAW. Identificar pelo tamanho (ex: 931 GB = disco de 1 TB)
  3. Intel/PC partition table — seleccionar “Intel” se for um disco de PC (MBR) ou “EFI GPT” se for GPT
  4. Analyse — seleccionar “Analyse” e premir Enter. O TestDisk faz um scan rápido da tabela de partições existente.
  5. Quick Search — premir Enter. O TestDisk procura partições perdidas lendo os sectores do disco.
  6. Quando encontrar a partição NTFS/FAT32, aparece listada com “D” (deleted) ao lado. Premir P para listar os ficheiros e confirmar que os dados estão lá.
  7. Se os ficheiros aparecerem correctamente, premir Enter para continuar, depois seleccionar Write para escrever a nova tabela de partições.
  8. Confirmar com Y (Yes).
  9. Sair do TestDisk e reiniciar o Windows.

Após o reinício, o disco deve aparecer novamente como NTFS no Explorer e no Gestor de Discos, com todos os ficheiros acessíveis.

4.3 Se o Quick Search não encontrar a partição

Seleccionar “Deep Search” ( opção disponível após o Quick Search). O Deep Search lê cada sector do disco — num disco de 1 TB pode demorar 2-6 horas dependendo da velocidade do disco e da conexão USB.

5. Passo 3 — Recuperar Dados com PhotoRec (última opção)

Se o TestDisk não conseguir reparar a partição, o PhotoRec (incluído no mesmo download do TestDisk) faz um file carving — lê cada sector do disco e extrai ficheiros pela sua assinatura (headers de JPEG, PDF, DOCX, ZIP, etc.), ignorando completamente o filesystem.

cd C:\testdisk\testdisk-7.2-WIP.win
photorec_win.exe

Limitações do PhotoRec

Aspecto Comportamento
Nomes de ficheiros Perdidos — os ficheiros são nomeados file001.jpg, file002.pdf, etc.
Estrutura de pastas Perdida — todos os ficheiros vão para uma pasta plana
Ficheiros sem assinatura Não recuperados — ficheiros de texto sem header, config files, etc.
Ficheiros fragmentados Pode não recuperar correctamente ficheiros muito fragmentados
Tempo 4-12 horas para um disco de 1 TB

PhotoRec é a última opção porque perde a estrutura de directórios e os nomes dos ficheiros. Usar só se TestDisk falhar completamente.

6. Passo 4 — Verificar a Saúde do Disco com S.M.A.R.T.

Após recuperar o acesso aos dados, verificar se o disco está fisicamente saudável antes de continuar a utilizá-lo. Um disco que apareceu como RAW pode ter bad sectors físicos.

6.1 CrystalDiskInfo (gratuito)

  1. Descarregar CrystalDiskInfo (gratuito)
  2. Executar e seleccionar o disco USB
  3. Verificar o estado de saúde:
  • Good (azul) — disco saudável, a corrupção foi lógica
  • Caution (amarelo) — bad sectors detectados, considerar substituir
  • Bad (vermelho) — disco em falha iminente, copiar dados e substituir

6.2 Via WMIC (sem instalar nada)

wmic diskdrive get status

Este comando mostra o status S.M.A.R.T. básico de todos os discos. “OK” significa que não há falhas críticas reportadas, mas não é tão detalhado como o CrystalDiskInfo.

7. Outras Causas do Mesmo Sintoma

Nem todo o disco RAW é corrupção do MFT. Outras causas que produzem exactamente os mesmos sintomas:

  • Driver USB desactualizado ou em conflito — após uma actualização do Windows, o controlador USB pode não carregar correctamente. Verificar no Gestor de Dispositivos se há dispositivos com triângulo amarelo. Fix: desinstalar o driver e deixar o Windows reinstalar, ou instalar o driver do fabricante da motherboard/placa USB.
  • Cabo USB defeituoso — um cabo com mau contacto causa escritas incompletas que corrompem o MFT. Testar com outro cabo antes de assumir que o disco está avariado. Muito comum em cabos USB-C → USB-A.
  • Partição criada noutro OS — se o disco foi formatado em APFS (Mac), ext4 (Linux) ou HFS+, o Windows mostra RAW porque não tem drivers nativos. Instalar Paragon APFS for Windows ou Linux File Systems for Windows conforme o caso.
  • Mau contacto na porta USB — testar numa porta USB diferente, preferencialmente directa na motherboard (traseira do PC) em vez de um hub USB.
  • Disco encriptado com BitLocker sem desbloqueio — se o disco tinha BitLocker e não desbloqueou com a password, aparece como RAW. Abrir o BitLocker Drive Encryption no Painel de Controlo e desbloquear com a recovery key.

8. Como Evitar o Problema no Futuro

  • Ejectar sempre o disco USB antes de o remover — clicar no ícone “Remover hardware com segurança” na bandeja do sistema ou usar usbdeview para confirmar que o volume está flush. No mínimo, esperar 5 segundos após a última operação de escrita.
  • Activar “Better performance” + “Write caching” nas políticas do disco USB — vai fazer com que o Windows force o flush da cache antes de permitir eject. Nas propriedades do disco → separador “Policies” → “Better performance” (em vez de “Quick removal”). Isto torna o eject obrigatório, mas evita corrupção.
  • Não desconectar durante escritas — especialmente durante cópias de ficheiros grandes, backups ou operações de defragmentação.
  • Manter o cabo USB em bom estado — substituir cabos com sinais de desgaste (extremidades soltas, dobras acentuadas).
  • Backup 3-2-1 — ter sempre pelo menos duas cópias dos dados importantes em suportes diferentes. Um disco USB externo não é backup — é armazenamento primário. Ver artigo sobre estratégias de backup .
  • Verificar S.M.A.R.T. periodicamente — uma vez por mês, correr o CrystalDiskInfo ou wmic diskdrive get status para detetar bad sectors antes que causem corrupção.

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Duarte Spínola

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