Telemóvel Seguro: Evitar Mensagens e Chamadas de Phishing
O telemóvel é hoje o alvo preferencial do phishing em Portugal: o phishing e o smishing foram o incidente mais registado pelo CERT.PT em 2024 e continuam a liderar em 2025-2026. As burlas chegam por SMS (smishing), por chamadas (vishing) e por WhatsApp, disfarçadas de transportadoras, Autoridade Tributária, bancos ou MB Way. Este guia reúne as boas práticas para reconhecer, travar e reportar estas tentativas — no telemóvel pessoal e na PME.
ℹ Em resumo
Regra de ouro: urgência + pedido de dados/código/PIN = fraude. Nenhuma entidade legítima — banco, AT, transportadora ou operadora — pede códigos, PINs ou palavras-passe por SMS, chamada ou WhatsApp. Se houver pressa, pare e verifique por outro canal.
Neste artigo
- Conhecer o inimigo: smishing, vishing e quishing
- Sinais de alerta numa mensagem
- As burlas mais frequentes em Portugal
- Boas práticas no telemóvel
- Protecção nas chamadas
- Se caiu no golpe: os primeiros 30 minutos
- Boas práticas na PME
- Conclusão
Conhecer o inimigo: smishing, vishing e quishing
| Vector | Como chega | Objectivo do burlão |
|---|---|---|
| Smishing (SMS) | SMS com link para página falsa: “encomenda retida”, “multa em falta”, “conta bloqueada” | Roubar credenciais, cartões ou instalar malware |
| Vishing (chamada) | Voz: falso banco, falsa operadora, “Olá, Pai/Mãe” e fraudes com clones de voz por IA | Códigos de confirmação, transferências, acesso remoto ao telemóvel |
| Quishing (QR code) | QR codes falsos em faturas, parquímetros e mensagens que abrem páginas de login falsas | Roubar credenciais sem link visível |
| WhatsApp / redes sociais | “Olá, Pai”, burla do MB Way “recebi por engano”, contas falsas de conhecidos | Transferências imediatas, códigos de cartão, dados pessoais |
Os números nacionais explicam a urgência: o phishing foi o incidente mais registado pelo CERT.PT (790 registos em 2024, mais 13%) e a engenharia social saltou para o segundo lugar, com o vishing a representar 18% dos subtipos observados. Na banca e nas mensagens que imitam a AT, transportadoras e serviços de entregas, o padrão repete-se: uma tarefa banal, um prazo curto e um link.
Sinais de alerta numa mensagem
O CNCS resume a campanha numa hashtag: #LerAntesClicarDepois. Antes de tocar num link ou responder, verifique estes sinais:
- Urgência artificial — “hoje”, “nas próximas 24 horas”, “a sua conta será bloqueada”. O prazo curto serve para desactivar o pensamento crítico.
- Pedido de dados ou códigos — nenhum banco, AT ou operadora pede PIN, códigos de confirmação, códigos de activação MB Way ou palavras-passe por mensagem ou chamada. Nunca.
- Links disfarçados — pressione e segure no link para ver o destino real: domínios como
ctt-envios.infoouat-portugal.netnão são oficiais. Em caso de dúvida, escreva o endereço oficial à mão no browser. - Remetente genérico ou número estranho — números curtos estrangeiros, +44/+34 inesperados ou texto com erros grotescos de português.
- Contexto que não pediu — “a sua encomenda está retida” quando não há encomenda nenhuma é a assinatura clássica.
- Pedido de instalação de apps — instruções para instalar “suporte técnico”, APKs ou apps de controlo remoto são malware, não suporte.
As burlas mais frequentes em Portugal
| Burla | Mecanismo | Defesa |
|---|---|---|
| MB Way “recebi por engano” | Notificação real de transferência + WhatsApp a pedir devolução; a vítima torna-se “mula de lavagem” | Nunca devolver manualmente; contactar o banco, que faz a reversão correcta |
| MB Way “introduza o PIN para receber” | Campo de descrição do “Pedir Dinheiro” com texto falso sobre confirmação de depósito | Receber nunca exige PIN; PIN = envio de dinheiro |
| SMS transportadora (CTT, DPD…) | Link para “pago de portagem/encomenda retida” que pede dados de cartão | Acompanhar encomendas só na app/site oficial, sem usar links de SMS |
| Vishing “banco a ligar” | Pedido de confirmação de movimentos e códigos; às vezes com número que parece oficial | Desligar e ligar para o número do verso do cartão; os bancos não pedem códigos |
| “Olá, Pai/Mãe” + clones de voz IA | Chamada ou mensagem de um “filho” com novo número a pedir transferência urgente | Ligar ao número conhecido do filho; acordar uma palavra-chave de família |
| AT / IRS falso | “Reembolso pendente, confirme IBAN” com link para página falsa | Consultar apenas o Portal das Finanças, escrevendo o endereço à mão |
⚠ A fraude da IA
Com clones de voz, “a voz que conheço” deixou de ser verificação. Uma voz que pede dinheiro, códigos ou alteração de IBAN é suspeita por definição — confirme sempre num segundo canal que você iniciou (ligue você para o número oficial).
Boas práticas no telemóvel
As medidas técnicas reduzem a superfície de ataque mesmo quando a mensagem é convincente:
- Activar filtros de SMS — no iPhone: Definições → Mensagens → Filtragem de mensagens desconhecidas. No Android (Google Messages): Protecção contra spam e a verificação de remetentes verificados (verified SMS).
- Silenciar números desconhecidos — no iPhone, “Silenciar chamadas de desconhecidos”; no Android, filtragem de chamadas do Google Telefone e apps como Truecaller (com atenção à privacidade dos contactos).
- Bloquear e reportar o número — cada SMS suspeito: reportar na própria app (opção “Reportar junk”/bloquear).
- Manter o sistema actualizado — as actualizações de segurança do iOS/Android fecham as falhas que os trojans bancários exploram.
- Apps só das lojas oficiais — a maioria dos trojans bancários Android (droppers) chega via APKs e lojas de terceiros. Desactivar a instalação de fontes desconhecidas.
- Permissões mínimas — uma lanterna não precisa de aceder a SMS, contactos e acessibilidade. Apps de acessibilidade activadas por apps desconhecidas é o sinal clássico de trojan bancário.
- Bloqueio biométrico + SIM PIN — o PIN do SIM impede que um ladrão use o cartão noutro telemóvel para receber os códigos de confirmação.
- Não guardar senhas bancárias no browser do telemóvel e usar as apps oficiais do banco, que têm protecções próprias.
Protecção nas chamadas
- Desligar e ligar você — a verificação só conta se você ligar para o número oficial (verso do cartão, site oficial). Nunca use o número que a chamada lhe indica.
- Regra dos 3 segundos — pressão + urgência + sigilo (“não fale com ninguém”) = burla. Desligue.
- Nunca instalar apps sob instruções telefónicas — o falso “apoio ao cliente” que pede para instalar uma app de acesso remoto está a tomar conta do telemóvel.
- Palavra-chave familiar — combinada com os familiares mais próximos para validar emergências supostas (o contragolpe aos clones de voz).
- Verificar o número no histórico — números ocultos, +353/+44 inesperados ou sequências estranhas merecem desconfiança; mas atenção: o caller ID também pode ser falsificado (spoofing).
Se caiu no golpe: os primeiros 30 minutos
| Passo | Acção |
|---|---|
| 1 | Ligar imediatamente ao banco (linha de cancelamento 24h) e pedir o cancelamento do cartão/conta e a contestação das transferências. Quanto mais rápido, maior a probabilidade de reverter. |
| 2 | Preservar as provas — não apagar SMS, WhatsApp, números, capturas de ecrã e comprovativos. |
| 3 | Participar à PSP/GNR/PJ (a queixa é essencial para acionar o mecanismo de reversão e para as investigações). |
| 4 | Reportar ao CERT.PT em cert.pt (o CNCS acompanha campanhas activas e pode ajudar a derrubar páginas falsas). |
| 5 | Se instalou uma app suspeita: modo de segurança/desinstalar, mudar senhas a partir de outro dispositivo e, no limite, repor o telemóvel. |
| 6 | Avisar os contactos se a sua conta de WhatsApp/mensagens foi comprometida — os burlões costumam atacar a lista de contactos da vítima. |
Boas práticas na PME
- Verificação multi-canal para pagamentos — qualquer alteração de IBAN ou pagamento urgente confirma-se por telefone para o número já conhecido do fornecedor, nunca pelos contactos da mensagem.
- MFA resistente a phishing — passkeys/FIDO2 nas contas críticas (Microsoft 365, banca, sistemas internos); o SMS como segundo factor já é frágil face a SIM swapping.
- Regra de ouro dos códigos — nenhum colaborador partilha códigos de verificação recebidos por SMS, nem com “o técnico” nem com “o administrador”.
- Simulações e formação — campanhas internas de simulação de smishing/vishing, com o mote #LerAntesClicarDepois do CNCS como referência; e um canal simples para reportar mensagens suspeitas sem medo de punição.
- Procedimento de incidente — quem ligar, a quem, em quanto tempo. Nos primeiros 30 minutos decide-se se a perda é de centenas ou de milhares de euros.
✓ O essencial em três frases
Urgência é o sinal número um de fraude. Códigos e PINs nunca se partilham — nem por SMS, nem por chamada, nem com quem “diz” ser o banco. E toda a alteração financeira se confirma num canal que você inicia.
Conclusão
O telemóvel é o canal onde a engenharia social funciona melhor: está sempre connosco, a interface é pequena e a urgência pesa mais. As defesas que funcionam são simples — desconfiar de prazos curtos, nunca partilhar códigos, verificar por um segundo canal iniciado por si, e reportar. Na PME, estas práticas deixam de ser conselho individual e passam a procedimento obrigatório, sobretudo em pagamentos.
Para aprofundar, veja o guia sobre phishing moderno (inclui smishing e quishing), a configuração de MFA FIDO2 resistente a phishing e a defesa contra ataques com IA.