Dia 16: VLANs e 802.1Q — Configuração Prática em Switches
Neste artigo
As VLANs (Virtual Local Area Networks) separam domínios de broadcast numa infra-estrutura física comum, permitindo isolar tráfego por departamento, função ou nível de segurança. O padrão IEEE 802.1Q adiciona uma etiqueta de 4 bytes ao quadro Ethernet para identificar a VLAN a que pertence. Hoje vamos configurar VLANs em três fabricantes de switches geridos, montar trunking 802.1Q, routar entre VLANs e identificar os erros mais comuns.
Este artigo é parte do Curso de Redes 30 Dias. No Dia 4 abordámos Ethernet, VLANs e Spanning Tree Protocol, e no Dia 2 falámos de subnetting e máscaras de rede. O Dia 17 cobrirá encaminhamento avançado com Policy Routing e Multicast.
ℹ Planeamento de VLANs
Um bom plano de VLANs começa por identificar departamentos: Vendas, TI, Servidores, Convidados — cada um com requisitos de segurança e tráfego diferentes.
1. Planeamento de VLANs
Antes de tocar num switch, é essencial desenhar o plano de VLANs numa folha de cálculo ou documento. Mapear cada VLAN a um nome, um ID numérico, uma sub-rede IP e um gateway. Uma convenção consistente evita confusão futura quando a rede cresce.
| VLAN ID | Nome | Sub-rede | Gateway |
|---|---|---|---|
| 10 | Vendas | 192.168.10.0/24 | 192.168.10.1 |
| 20 | TI | 192.168.20.0/24 | 192.168.20.1 |
| 30 | Servidores | 192.168.30.0/24 | 192.168.30.1 |
| 99 | Gestao | 192.168.99.0/24 | 192.168.99.1 |
Regras de planeamento a respeitar:
- IDs 1 e 1002-1005 são reservados em Cisco IOS (VLAN 1 é predefinida, 1002-1005 são FDDI/Token Ring legacy). Não usar para tráfego de produção.
- VLAN nativa deve ser uma VLAN não usada para dados (ex: 999) para evitar ataques de VLAN hopping.
- VLAN de gestão separada (ex: 99) com acesso restringido por ACL.
- Naming convention consistente: sem espaços, sem acentos, máximo 32 caracteres.
- Sub-redes alinhadas com o ID da VLAN quando possível (VLAN 10 = 192.168.10.0/24).
2. Configuração em Switches Cisco
O Cisco IOS é o sistema operativo mais comum em switches empresariais. A configuração de VLANs faz-se em dois passos: criar as VLANs no banco de dados global e atribuir portas a cada VLAN.
2.1 Criar VLANs e configurar portas access
enable
configure terminal
vlan 10
name Vendas
vlan 20
name TI
vlan 30
name Servidores
vlan 99
name Gestao
exit
# Porta access
interface range gigabitEthernet 0/1-10
switchport mode access
switchport access vlan 10
spanning-tree portfast
O switchport mode access fixa a porta como access (sem negociação de trunk). O spanning-tree portfast acelera a transição para forwarding em portas de utilizador final.
2.2 Configurar trunk 802.1Q
interface gigabitEthernet 0/24
switchport mode trunk
switchport trunk allowed vlan 10,20,30,99
switchport trunk native vlan 999
O comando trunk allowed vlan restringe quais VLANs atravessam o trunk — não deixar todas passar por defeito. A VLAN nativa 999 transporta tráfego sem etiqueta; usar uma VLAN inutilizada evita VLAN hopping.
⚠ VLAN Hopping
VLAN hopping é um ataque real — desactivar autonegotiation em portas trunk e usar VLAN nativa não usada para evitar saltos de VLAN.
2.3 Verificação
show vlan brief
show interfaces trunk
show interfaces gigabitEthernet 0/24 switchport
3. Configuração em Switches HP/Aruba
Os switches HP/Aruba (ProCurve e ArubaOS-Switch) usam uma sintaxe diferente da Cisco. Em vez de switchport mode access, atribui-se portas com as palavras-chave untagged (access) e tagged (trunk).
# HP/Aruba — VLAN
vlan 10
name "Vendas"
untagged 1-10
tagged 24
vlan 20
name "TI"
untagged 11-15
tagged 24
vlan 30
name "Servidores"
untagged 16-20
tagged 24
vlan 99
name "Gestao"
tagged 24
ip address 192.168.99.2 255.255.255.0
exit
# VLAN nativa no trunk
vlan 999
name "Nativa"
exit
interface 24
untagged vlan 999
Em HP/Aruba, uma porta pode ser untagged numa só VLAN (equivalente a access) e tagged em várias VLANs simultaneamente (trunk 802.1Q). A VLAN nativa define-se atribuindo untagged na porta trunk.
3.1 Verificação
show vlans
show vlans ports detail
show trunk
4. Configuração em MikroTik
O RouterOS da MikroTik trata VLANs de forma flexível: podem ser criadas sobre interfaces físicas, bridges ou bonds. Em switches com chip de switching (CRS), pode-se usar hardware offload; em routers normais, o processamento é CPU-based.
4.1 VLAN sobre bridge
# MikroTik — VLAN
/interface vlan add name=vlan10 vlan-id=10 interface=bridge1
/interface vlan add name=vlan20 vlan-id=20 interface=bridge1
/interface vlan add name=vlan30 vlan-id=30 interface=bridge1
/ip address add address=192.168.10.1/24 interface=vlan10
/ip address add address=192.168.20.1/24 interface=vlan20
/ip address add address=192.168.30.1/24 interface=vlan30
4.2 Bridge VLAN filtering
No RouterOS v6.41+, o método recomendado é usar bridge VLAN filtering em vez de criar interfaces VLAN individuais sobre a bridge. Isto permite que o chip de switching faça offload.
/interface bridge add name=bridge1 vlan-filtering=yes
/interface bridge port
add bridge=bridge1 interface=ether2 pvid=10
add bridge=bridge1 interface=ether3 pvid=20
add bridge=bridge1 interface=ether4 pvid=30
add bridge=bridge1 interface=ether5 pvid=99
/interface bridge vlan
add bridge=bridge1 vlan-ids=10 tagged=ether1 untagged=ether2
add bridge=bridge1 vlan-ids=20 tagged=ether1 untagged=ether3
add bridge=bridge1 vlan-ids=30 tagged=ether1 untagged=ether4
add bridge=bridge1 vlan-ids=99 tagged=ether1 untagged=ether5
O pvid (Port VLAN ID) define a VLAN de entrada para tráfego sem etiqueta. O tagged indica portas trunk e untagged portas access.
5. Encaminhamento VLAN (Router-on-a-Stick)
Para que dispositivos em VLANs diferentes comuniquem, é necessário routar entre elas. Existem duas abordagens: router-on-a-stick (um router externo com sub-interfaces) e switch L3 (encaminhamento interno no próprio switch).
5.1 Router-on-a-Stick em Cisco
# Router-on-a-stick (Cisco)
interface gigabitEthernet 0/0
no ip address
interface gigabitEthernet 0/0.10
encapsulation dot1Q 10
ip address 192.168.10.1 255.255.255.0
interface gigabitEthernet 0/0.20
encapsulation dot1Q 20
ip address 192.168.20.1 255.255.255.0
interface gigabitEthernet 0/0.30
encapsulation dot1Q 30
ip address 192.168.30.1 255.255.255.0
Cada sub-interface usa encapsulation dot1Q para associar a VLAN ID. A interface física fica sem IP e ligada a uma porta trunk do switch.
5.2 Switch L3 (inter-VLAN encaminhamento interno)
# Cisco L3 switch
ip encaminhamento
interface vlan 10
ip address 192.168.10.1 255.255.255.0
interface vlan 20
ip address 192.168.20.1 255.255.255.0
interface vlan 30
ip address 192.168.30.1 255.255.255.0
O comando ip encaminhamento activa o forwarding L3 no switch. As SVIs (Switch Virtual Interfaces) são criadas com interface vlan N e funcionam como gateway de cada VLAN.
| Critério | Router-on-a-Stick | Switch L3 |
|---|---|---|
| Performance | Limitada pelo router | Hardware forwarding (CEF) |
| Custo | Router extra | Switch L3 (mais caro) |
| Latência | Maior (salto L3 externo) | Menor (switching interno) |
| Ideal para | Redes pequenas | Redes médias/grandes |
6. Voice VLAN
A voice VLAN separa tráfego de telefonia IP do tráfego de dados na mesma porta física. O telefone IP envia frames etiquetados com a VLAN de voz e o PC ligado ao telefone envia frames sem etiqueta (na VLAN de dados). O switch distingue-os automaticamente pelo campo 802.1Q.
6.1 Configuração Cisco
vlan 110
name Voice
interface gigabitEthernet 0/1
switchport mode access
switchport access vlan 10
switchport voice vlan 110
spanning-tree portfast
mls qos trust device cisco-phone
mls qos trust cos
O switchport voice vlan 110 atribui a VLAN de voz. A porta continua em modo access para a VLAN de dados (10), mas aceita frames etiquetados 802.1Q para a VLAN 110. O CDP (Cisco Discovery Protocol) detecta o telefone e aplica QoS automaticamente.
6.2 Considerações de QoS
- CoS 5 (Class of Service) é reservado para voz no campo 802.1P (3 bits dentro da etiqueta 802.1Q).
- DSCP 46 (EF) é o valor recomendado para tráfego RTP de voz no nível L3.
- Confiar no telefone IP apenas se for gerido (para evitar marcação maliciosa de CoS).
- Largura de banda por chamada G.711: ~87 kbps com sobrecarga L2; G.729: ~31 kbps.
7. Erros Comuns e Lista de Verificação
A maioria dos problemas de VLAN resume-se a cinco categorias: portas mal atribuídas, VLANs não criadas na base de dados, trunk com VLANs não permitidas, VLAN nativa incompatível entre switches, e encaminhamento inter-VLAN ausente.
| Sintoma | Causa provável | Solução |
|---|---|---|
| Host não obtém IP na VLAN correcta | Porta access na VLAN errada | Verificar com show vlan brief |
| Sem conectividade entre switches | VLANs não permitidas no trunk | trunk allowed vlan add |
| Tráfego na VLAN errada entre switches | VLAN nativa diferente nos dois lados | Igualar native vlan em ambos |
| VLANs não comunicam entre si | Routing inter-VLAN inactivo | Activar ip encaminhamento ou router-on-a-stick |
| VLAN 1 inacessível | VLAN 1 removida ou não usada | Migrar gestão para VLAN dedicada (99) |
✓ Lista de Verificação
Confirmar antes de dar a rede como pronta: todas as VLANs criadas e nomeadas; portas access atribuídas; trunk configurado com VLANs permitidas; VLAN nativa igual em ambos os lados; encaminhamento inter-VLAN activo; ACLs de gestão aplicadas; PortFast em portas de utilizador; spanning-tree activo.
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