Entra Internet Access: Zero Trust Web Filtering para PME
Neste artigo
1. Introdução
As PME portuguesas com licenças Microsoft 365 E3 ou E5 podem subscrever como add-on uma camada de segurança baseada em identidade que muitas vezes permanece por configurar: o Microsoft Entra Internet Access.
Neste artigo explicamos o que é o Entra Internet Access, como se licencia, como configurar o cliente Global Secure Access, como criar políticas de filtragem web e como aplicar Acesso Condicional ao nível TCP. O objectivo é que uma equipa de TI de uma PME com 50 a 500 utilizadores consiga activar a funcionalidade sem recorrer a consultoria externa.
ℹ Para quem é este artigo
Administradores de TI de PME com Microsoft 365 E3/E5 que pretendem substituir ou complementar um web filter tradicional (Zscaler, Netskope, Cisco Umbrella) por uma solução integrada no ecossistema Microsoft.
2. O que é Entra Internet Access (SSE)
O Microsoft Entra Internet Access é um serviço de Security Service Edge (SSE) que protege o acesso dos utilizadores a Internet e a aplicações SaaS. Faz parte da família Microsoft Entra e integra-se nativamente com o Entra ID (antigo Azure AD) e o Microsoft Defender for Cloud Apps.
A arquitectura tradicional de web filtering baseia-se em endereços IP ou em proxies transparentes. O Entra Internet Access muda o paradigma: o tráfego é encaminhado através do cliente Global Secure Access, que autentica o utilizador com o token do Entra ID e aplica políticas que consideram a identidade, o dispositivo, o risco de sessão e o destino.
As três capacidades principais do Entra Internet Access são:
| Funcionalidade | Descrição | Caso de uso típico |
|---|---|---|
| Filtragem Web | Bloqueio ou permissão de categorias de sites por identidade | Bloquear redes sociais em horário laboral |
| Acesso Condicional TCP | Políticas ao nível de ligação TCP, não só HTTP | Permitir acesso a um SaaS apenas de dispositivos compatíveis |
| Proteção contra C2 e exfiltração | Deteção de comunicações com servidores command-and-control | Bloquear beaconing de malware comprometido |
O cliente Global Secure Access atua como um túnel ponto-a-ponto que encaminha o tráfego web do utilizador para os pontos de presença da Microsoft, onde as políticas são avaliadas antes de o tráfego chegar ao destino. Isto significa que as políticas se aplicam mesmo quando o utilizador trabalha fora da rede corporativa, sem VPN.
ℹ SSE vs VPN tradicional
A VPN tradicional encaminha todo o tráfego para a rede corporativa, onde um firewall inspecciona. O SSE inspecciona o tráfego na nuvem, sem passar pela rede on-premises. Para PME sem datacenter próprio, o SSE elimina a necessidade de manter infraestrutura VPN.
3. Licenciamento
O Entra Internet Access requer uma licença específica que não está incluída em todos os planos Microsoft 365. As opções são:
| Licença | Inclui Entra Internet Access? | Observações |
|---|---|---|
| Microsoft 365 E3 | Não directamente | Requer add-on Entra Suite ou licença individual |
| Microsoft 365 E5 | Não directamente | E5 inclui Defender for Cloud Apps, mas não o SSE |
| Microsoft Entra Suite | Sim (incluído) | Add-on para E3/E5; inclui P2, ID Governance e SSE |
| Entra Internet Access (autónomo) | Sim | Licença individual por utilizador |
Para uma PME com Microsoft 365 E3 ou E5, o caminho mais prático é adquirir o Microsoft Entra Suite como add-on. O Entra Suite inclui não só o Internet Access mas também o Entra ID P2, ID Governance, Permissions Management e Verifiable Credentials, pelo que o valor agregado é significativo.
⚠ Atenção ao licenciamento
O Entra Internet Access não está incluído no Microsoft 365 E5 Security nem no E5 Compliance. É necessário o add-on Entra Suite ou a licença autónoma. Verificar sempre no portal Microsoft 365 Admin antes de iniciar a implementação.
A verificação de licenças pode ser feita no portal Entra:
# Verificar licenças atribuídas via Microsoft Graph PowerShell
Connect-MgGraph -Scopes "User.Read.All","Directory.Read.All"
Get-MgUserLicenseDetail -UserId "[email protected]" |
Select-Object SkuPartNumber, ServicePlans
# Procurar pelo ServicePlan "MFA_SSE_INTERNET_ACCESS"
Get-MgUserLicenseDetail -UserId "[email protected]" |
ForEach-Object { $_.ServicePlans | Where-Object { $_.ServicePlanName -like "*SSE*" } }
4. Configurar Global Secure Access Client
O Global Secure Access Client e a aplicação instalada no dispositivo do utilizador que encaminha o tráfego web para os pontos de presença da Microsoft. Está disponível para Windows 10/11 e macOS. O cliente pode ser distribuído via Intune, GPO ou instalado manualmente.
4.1 Pré-requisitos
Antes de instalar o cliente, é necessário preparar o tenant Entra:
- Licenças Entra Suite ou Entra Internet Access atribuídas aos utilizadores
- Permissões de Global Administrator ou Application Administrator
- Grupos de segurança no Entra ID para segmentar utilizadores (ex: Financeiro, TI, Comercial)
- Intune configurado se a distribuição for via MDM
4.2 Activar o Global Secure Access no tenant
A activação do serviço faz-se no portal Entra, em Global Secure Access:
# Via Microsoft Graph PowerShell (módulo beta)
Connect-MgGraph -Scopes "Policy.ReadWrite.ApplicationConfiguration"
# Ativar o traffic forwarding profile para Internet Access
$profile = @{
"@odata.type" = "#microsoft.graph.networkaccess.forwardingProfile"
name = "Internet Access"
state = "enabled"
trafficForwardingType = "internet"
}
Invoke-MgGraphRequest -Method POST `
-Uri "beta/networkaccess/forwardingProfiles" `
-Body $profile
4.3 Distribuir o cliente via Intune
Para PME com Intune, a distribuição e feita como uma aplicação Win32. O instalador MSI do Global Secure Access Client está disponível no portal Entra em Global Secure Access > Connectivity > Client download.
# Parâmetros de instalação silenciosa para Intune
# Comando de instalação:
msiexec /i GlobalSecureAccessClient.msi /qn ENTRA_TENANT_ID="00000000-0000-0000-0000-000000000000"
# Comando de desinstalação:
msiexec /x GlobalSecureAccessClient.msi /qn
# Registo de instalação (para troubleshooting):
msiexec /i GlobalSecureAccessClient.msi /qn /log install.log ENTRA_TENANT_ID="..."
ℹ Tenant ID obrigatório
O parâmetro ENTRA_TENANT_ID é obrigatório na instalação. Sem ele, o cliente instala-se mas não consegue registar-se no tenant. Encontrar o Tenant ID em Entra ID > Overview > Tenant properties.
5. Políticas de Filtragem Web
As políticas de filtragem web permitem bloquear ou permitir categorias de sites com base na identidade do utilizador e no grupo de segurança a que pertence. Ao contrário de um web filter tradicional que aplica regras por IP, o Entra Internet Access avalia cada pedido HTTP/HTTPS com base no utilizador autenticado.
5.1 Criar uma política de filtragem
No portal Entra, navegar para Global Secure Access > Web filtering policies. Definir o nome da política, o grupo de segurança a que se aplica e as categorias a bloquear ou permitir:
# Criar política de filtragem web via Graph API
$body = @{
name = "Bloquear Redes Sociais - Financeiro"
policyType = "web"
rules = @(
@{
name = "Bloquear redes sociais"
action = "block"
destinationCategories = @("Social Networking", "Social Media")
priority = 100
}
)
scope = @{
groups = @("[email protected]")
}
}
Invoke-MgGraphRequest -Method POST `
-Uri "beta/networkaccess/filteringPolicies" `
-Body ($body | ConvertTo-Json -Depth 5)
5.2 Categorias de filtragem disponíveis
O Entra Internet Access classifica sites em categorias semelhantes a soluções como Cisco Umbrella. As categorias mais relevantes para PME são:
| Categoria | Recomendacao | Justificação |
|---|---|---|
| Command and Control | Bloquear | Comunicações de malware |
| Malware | Bloquear | Sites que distribuem malware |
| Phishing | Bloquear | Sites de engenharia social |
| Social Networking | Bloquear (Financeiro) | Prevenir exfiltração de dados |
| File Sharing | Bloquear (exceto OneDrive) | Canal alternativo de exfiltração |
| Gambling | Bloquear | Produtividade e conformidade |
5.3 Proteção contra C2 e exfiltração
O Entra Internet Access integra sinais de threat intelligence da Microsoft para bloquear comunicações com servidores command-and-control (C2). Quando um dispositivo comprometido tenta contactar um servidor C2, o tráfego é bloqueado no ponto de presença e o evento é registado no Microsoft Defender for Cloud Apps e no Microsoft Sentinel.
⚠ Categorias dinâmicas
As categorias de C2 e malware são actualizadas continuamente pela Microsoft. Não é necessário manter listas manuais de indicadores de compromisso (IOCs). No entanto, a política deve ser auditada trimestralmente para confirmar que não há excepções desnecessárias.
6. Acesso Condicional ao nível TCP
O Acesso Condicional do Entra ID tradicionalmente opera ao nível HTTP: avalia o pedido e devolve um desafio de autenticação. Com o Entra Internet Access, o Acesso Condicional é estendido ao nível TCP, permitindo bloquear ou permitir ligações inteiras antes de qualquer troca de dados da camada de aplicação.
Isto é particularmente útil para proteger aplicações SaaS que não suportam autenticação moderna ou protocolos não-HTTP (SSH, RDP, bases de dados). A política avalia a identidade, a conformidade do dispositivo e o risco de sessão antes de permitir a ligação TCP.
6.1 Cenários de aplicação
| Cenario | Política TCP | Benefício |
|---|---|---|
| Acesso a SaaS não-Microsoft | Permitir apenas de dispositivos compatíveis | Impede acesso de PCs pessoais |
| Acesso a bases de dados cloud | Permitir apenas do grupo TI | Reduz superfície de ataque |
| Acesso a serviços SSH/RDP | Exigir MFA + dispositivo compatível | Substitui VPN para admin remota |
6.2 Criar uma política de Acesso Condicional TCP
# Criar política de Acesso Condicional para aplicação TCP
$body = @{
displayName = "Acesso SaaS - Apenas Dispositivos compatíveis"
state = "enabled"
conditions = @{
applications = @{
includeApplications = @("app-id-da-aplicacao-saas")
}
users = @{
includeGroups = @("[email protected]")
}
platforms = @{
includePlatforms = @("windows","macOS")
}
}
grantControls = @{
operator = "AND"
builtInControls = @("compliantDevice","mfa")
}
}
Invoke-MgGraphRequest -Method POST `
-Uri "beta/identity/conditionalAccess/policies" `
-Body ($body | ConvertTo-Json -Depth 5)
ℹ Integração com Defender for Cloud Apps
Quando uma política TCP bloqueia uma ligação, o evento é reencaminhado para o Defender for Cloud Apps, onde é correlacionado com outras actividades do utilizador. Isto permite criar alertas e sessões de remediação automáticas.
7. Boas Práticas
A adoção do Entra Internet Access numa PME deve ser faseada. Começar por um piloto com o departamento de TI, expandir para um grupo alargado é só depois aplicar a toda a organização. As seguintes boas práticas resumem a experiência de implementações reais:
- Começar com report-only: Criar políticas em modo de relatório antes de as activar em modo de imposição. Isto permite identificar falsos positivos sem interromper o trabalho dos utilizadores.
- Segmentar por grupos: Nunca aplicar uma política a “Todos os utilizadores” na primeira implementação. Usar grupos de segurança do Entra ID para segmentar (TI, Financeiro, Comercial) e aplicar políticas distintas por segmento.
- Excluir contas de serviço: Contas de serviço que não suportam MFA devem ser excluídas das políticas de Acesso Condicional TCP para evitar interrupções de integrações.
- Monitorizar o registo de actividade: Usar o Microsoft Sentinel ou o Log Analytics para ingerir os logs do Entra Internet Access e criar alertas para tentativas de acesso bloqueadas.
- Revisão trimestral: Auditar as políticas e as excepções (allow-lists) a cada três meses para confirmar que não há regras obsoletas ou excessivamente permissivas.
- Comunicar com os utilizadores: Antes de bloquear categorias como Redes Sociais, informar os utilizadores e fornecer um canal para solicitar exceções legítimas (ex: Marketing precisa de aceder a redes sociais).
✓ Checklist de implementação
1. Verificar licenças Entra Suite → 2. Ativar forwarding profile → 3. Distribuir cliente via Intune → 4. Criar políticas em report-only → 5. Validar falsos positivos → 6. Activar imposição no grupo piloto → 7. Expandir a toda a organização → 8. Configurar alertas no Sentinel
O Entra Internet Access é uma das capacidades mais subutilizadas do ecossistema Microsoft 365. Para uma PME que já paga as licenças, ativar esta camada de segurança baseada em identidade é um investimento de tempo baixo com retorno alto: protege contra C2, reduz o risco de exfiltração e substitui a necessidade de manter infraestrutura VPN on-premises.
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